Etnomatemática
PRODUÇÃO DE 1999
Ubiratan D`Ambrosio
O FAZER MATEMÁTICO UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA III Seminário Nacional de História da Matemática, Vitória, ES, 28-31 de março de 1999 "lhistoire des sciences est avant tout lhistoire de leurs sprit philosophique, de la représentation que les hommes se sont faits à chaque instant de lunivers, quand ils essayent de la préciser et de la légitimer, dapporter leurs preuves et leurs raisons aussi loin quils le peuvent". Abel Rey, 1935 MATEMÁTICA E CRIATIVIDADE O essencial neste trabalho se refere à natureza do conhecimento matemático. Como, se é que, o conhecimento matemático difere de outras formas de conhecimento? O que é o conhecimento matemático? Como se insere no ciclo evolutivo da espécie? O que tem de universal o conhecimento matemático que se originou na Antigüidade Grega? Essas são questões que podem ser sintetizadas numa questão que domina a filosofia da matemática: A MATEMÁTICA É CRIAÇÃO OU DESCOBERTA? O tema é muito complexo e tem muito a ver com as relações da matemática com outras formas de conhecimento: matemática e sociedade, matemática e arte, matemática e literatura [1], matemática e religião, matemática e técnicas, matemática e produção, e não terminaríamos essa lista. Cada uma dessas constitui, em si, uma linha de pesquisa. Ao dicotomizar a natureza do fazer matemática cria-se um espaço falsificador, que proporciona discussões estéreis, enganosas e até agressivas. Essa é, no meu entender, uma pergunta falsa. O fazer matemático é, sem dúvida, intrigante. Gosto de mencionar um projeto que, levado a termo, ajudaria na elucidaria as peculiaridades do fazer matemático. Trata-se do projeto "How mathematicians work?", que foi conduzido há cerca de dez anos, pelo IMA: Institute of Mathematics and its Applications, da Inglaterra. Baseando-se nesse projeto, proponho as seguintes questões: 1. SOMOS CAPAZES DE MEDIR CRIATIVIDADE MATEMÁTICA? 2. SÃO OS CRIATIVOS MATEMÁTICOS DIFERENTES DE OUTROS CRIATIVOS? 3. QUE PAPÉIS TEM VERDADE E ERRO NAS PRÁTICAS MATEMÁTICAS? 4. A MATEMÁTICA É VISTA PELOS QUE A PRATICAM COMO UMA TÉCNICA, UMA ARTE, OU ALGO SUI GENERIS? 5. PODEM ASPECTOS COGNITIVOS E AFETIVOS DA MATEMÁTICA SEREM ENSINADOS ou SÃO SIMPLESMENTE APRENDIDOS? E QUE SÃO ESSES ASPECTOS? 6. QUE ASSISTÊNCIA PODE-SE ESPERAR NA CRIAÇÃO, APRENDIZADO e APLICAÇÕES DA MATEMÁTICA? 7. POR QUE ALGUÉM DECIDE SER MATEMÁTICO? 8. A MATEMÁTICA É PRODUZIDA INDIVIDUALMENTE OU SOCIALMENTE? 9. AS MEDIDAS DESSA PRODUÇÃO DIFEREM DE OUTRAS MEDIDAS DE PRODUÇÃO? COMO? 10. É POSSÍVEL AQUILATAR A QUALIDADE DESSA PRODUÇÃO? COMO? Essas dez perguntas constituem, em si, um importante projeto de pesquisa, que pode ser conduzido em diversos ambientes e tratando das disciplinas mais diversas. Uma das melhores reflexões que conheço sobre o que é criatividade matemática está na entrevista que Ennio De Giorgi, um dos grandes matemáticos do século, concedeu a Michelle Emmer poucos meses antes de sua morte, em 1996. Nessa entrevista De Giorgi diz "Eu penso que a origem da criatividade em todos os campos é aquilo que eu chamo a capacidade ou disposição de sonhar: imaginar mundos diferentes, coisas diferentes, e procurar combina-los de várias maneiras. A essa habilidade - muito semelhante em todas as disciplinas - você deve acrescentar a habilidade de comunicar esses sonhos sem ambigüidade, o que requer conhecimento da linguagem e das regras internas a cada disciplina." [2] A MATEMÁTICA E O OCIDENTE Ao abordar o conhecimento matemático, tomando como referência a matemática acadêmica, ficam privilegiados uma determinada região e um momento na evolução da humanidade. De fato, quando nos referimos à matemática estamos identificando o conhecimento que se originou nas regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo. Mesmo reconhecendo que outras culturas tiveram influência na evolução dessa forma de conhecimento, sua organização intelectual e social é devida aos povos dessas regiões. Por razões várias, ainda pouco explicadas, a civilização ocidental, que resultou dessas culturas, veio a se impor a todo o planeta. Com ela, a matemática, cuja origem se traça às civilizações mediterrâneas, particularmente à Grécia antiga, também se impôs a todo o mundo. Ao atentar nos modos como o processo de evolução da humanidade é descrito, analisado, interpretado e usado nas várias maneiras de se organizar o conhecimento histórico, surgem algumas questões que discutirei a seguir. Mesmo adotando uma postura holística, vou dar maior atenção à história do conhecimento científico, em particular matemático. A ciência moderna nasceu enquanto o chamado Velho Mundo se deslumbrava com a nova realidade que representou o Novo Mundo e a partir de então sua evolução se fez com a necessária participação de todos. Ao reconhecermos uma contribuição mais intensa de cientistas do Velho Mundo na construção da sociedade moderna, é importante lembrar que o cenário natural, cultural e social do Novo Mundo foi fundamental para o imaginário que serviu de base para essa mesma construção e que, até os dias de hoje, a natureza e a cultura exuberantes do hemisfério conquistado ainda ativam esse imaginário. A presença das Américas na elaboração do pensamento científico e cultural da Europa cresce em importância desde o primeiro século do encontro até os dias de hoje. Um notável esforços de conciliação faz com que episódios que não podem ser classificados de outra maneira que genocídio humano e cultural, perpetrados nos anos difíceis da época colonial e durante a independência crioula, cedam hoje lugar à busca de novos rumos para a humanidade, com a finalidade maior de sobrevivência do planeta e da civilização. No que se refere ao Novo Mundo, particularmente à América Latina, cabe aos historiadores das ciências a recuperação de conhecimentos, valores e atitudes, muitas vezes relegados a plano inferior, ignorados e às vezes até reprimidos e eliminados, que poderão ser decisivos na busca desses novos rumos. Cabe reconhecer que somos uma cultura triangular, resultado das tradições européias, africanas e ameríndias, e que isso tem um impacto permanente em nosso quotidiano latino-americano. A MATEMÁTICA E A PERIFERIA Devemos reconhecer que as nações periféricas são não mais que afluentes do curso principal do atual do desenvolvimento científico e tecnológico das nações centrais [3]. Vamos refletir sobre o que se entende por matemática e qual o objeto de seu estudo. Isto é, fazer uma reflexão sobre a Filosofia da Matemática. E não se pode negar que a História da Matemática está atrelada à Filosofia da Matemática. Uma vez identificados os objetos do estudo, a relação de fatos, datas e nomes depende de registros, que podem ser de natureza muito diversa: memórias, práticas, monumentos e artefatos, escritos e documentos. Essas são as chamadas fontes históricas. E a interpretação depende de ideologia, na forma de uma filosofia da história. Esse depender é a essência do que se chama historiografia. A história tem servido das mais diversas maneiras a grupos sociais, desde família, tribos e comunidades, até nações e civilizações. Mas sobretudo tem servido como afirmação de identidade. Em particular, a História da Matemática tem sido muito afetada por isso. É interessante notar o que o historiador soviético Konstantín Ribnikov diz no capítulo introdutório de seu livro: "No estrangeiro [Ribnikov vivia na então União Soviética] se dedica grande atenção à história das matemáticas. A ela está dedicado um conjunto de livros e artigos. Nem tudo neles é, porém, fidedigno. Às vezes os autores de obras sobre história da ciência subordinam seu trabalho a fins distantes da objetividade e do caráter científico." E depois de vários parágrafos de crítica à orientação idealista e reacionária desses livros e artigos, Ribnikov conclui "A luta entre as forças progressistas e reacionárias na ciência matemática, que é uma das formas da luta de classes, se revela de forma mais intensa nas questões históricas e filosóficas das matemáticas....Ela [a história da ciência] deve estar bem organizada como parte da educação ideológica do estudantado e dos trabalhadores científicos." [4] A última frase da citação se aduna com a minha afirmação de não haver como escapar do caráter ideológico da História da Matemática, assim como de reconhecer que a ação educativa é uma ação política. Igualmente, ao filósofo das ciências e da tecnologia cabe entender as tramas conceituais que permitem reconhecer, identificar e valorizar formas de explicações e de ações classificadas como científicas e tecnológicas. Isso é particularmente importante se atentarmos para os descobrimentos e os processos de conquista e colonização. Distorções que deram como resultado a angustiante situação atual de coexistirem um mundo de fartura e prosperidade com um mundo de miséria e desumanidade, e a aterrorizadora perspectiva de extinção da civilização no planeta. Poderíamos sintetizar essas prioridades perguntando história de quem, do ponto de vista de quem, com que intenções? A contribuição dada pelas nações periféricas ao avanço da ciência e da tecnologia das nações centrais é, como um todo, trivial e marginal. Mas é inegável que, embora quantitativa e qualitativamente diferenciada, a produção científica e tecnológica dessas nações relativamente a seu próprio curso histórico tem sido não menos que essencial. O objetivo desta proposta é estudar a historicidade, muitas vezes negada, dessa produção. Nos países periféricos e nas populações marginalizadas dos países centrais nota-se o mesmo. A atenção dada às contribuições dos locais tem sido quase nenhuma. Embora a produção dos locais tenha sido muitas vezes insignificante, defasada e até mesmo equivocada quando comparada com aquela dos países centrais e das classes dominantes, é importante estimular pesquisa sobre fatos e personagens que tiveram, num certo momento, grande importância e repercussão entre seus pares e sua comunidade. Assim como as ações do presente, em particular a pesquisa científica e tecnológica, devem focalizar prioridades locais, mesmo que muitas vezes essas prioridades não se situem nas fronteiras do conhecimento, a pesquisa histórica também deve ser dirigido a coisas de interesse local [5]. Reconheço quão perigosa é essa proposta e o risco que se corre de cair no ufanismo que, tanto do ponto de vista histórico quanto para ações no presente, contribui para mascarar a verdade histórica e pode abrir espaço para um desenvolvimento equivocado [6]. Mas risco não pode ser justificativa para inação. Ao historiador das ciências e da tecnologia cabe não apenas o relato dos grandiosos antecedentes e conseqüentes das grandes descobertas científicas e tecnológicas, mas sobretudo a análise crítica que revelará acertos e distorções nas fases que prepararam os elementos essenciais para essas descobertas e para sua expropriação e utilização pelo poder estabelecido. O CONHECIMENTO No estado atual do conhecimento, podemos orientar nossas reflexões a partir das seguintes questões: 1. O que é realidade? 2. Como o indivíduo recebe informações que deflagram o processo cognitivo? Como funcionam os mecanismos sensoriais? O que é memória? O que é intuição? 3. Como se dá a comunicação? Quais seus limites? Quais as conseqüências da interação comunicativa? 4. Como se dá a geração individual do conhecimento? 5. Qual o processo social de geração do conhecimento? 6. Como o conhecimento já coletivizado se estrutura e é validado como um corpo de conhecimento? O que é verdade? 7. Como o conhecimento é reconhecido como elemento de poder? Quais os mecanismos de expropriação e de hierarquização de conhecimento? 8. Como se organiza a difusão do conhecimento? Como se disparte o conhecimento? 9. Quais os interesses e filtros que canalizam esse dispartir? 10. Como tem sido quebrado o ciclo geração-organização-expropriação-difusão ao longo da história? As etapas identificadas, sintetizadas nas 10 questões acima, permitem uma análise histórico-crítica do conhecimento. Cada uma dessas questões constitui um programa de pesquisa e, no seu conjunto, uma proposta historiográfica [7]. Embora esteja começando a se delinear uma tendência na historiografia atual de encarar o conhecimento científico e tecnológico sob esse prisma, a matemática e sua história tem sido imune a essas reflexões. As 10 questões, focalizadas no conhecimento matemático, dão origem a um riquíssimo programa de pesquisa. CONHECIMENTO A questão central se refere ao conhecimento. Como é gerado? Como é organizado? Como é transmitido e difundido? E entender o conhecimento depende de se entender o fenômeno vida. O conhecimento acadêmico, particularmente o conhecimento científico, apresenta-se na fase de difusão. O homem, como todas as espécies vivas, tem sua existência identificada com a resolução das relações entre o indivíduo, o "outro"/sociedade e a natureza (imediata, planetária e cósmica). Meu ponto de partida é assumir a essencialidade mútua desses fatos, representada como
A metáfora do triângulo é conveniente pois, como todos sabem, os seis elementos (vértices e lados) são essenciais na definição de um triângulo. Vida é a realização desse ciclo. A existência de cada indivíduo, que se identifica com sua autonomia na busca de sobrevivência, é a ativação desse ciclo. A interrupção de qualquer dessas conexões interrompe a vida. A essencialidade mútua se manifesta nas conexões: indivíduo - realidade [para sobrevivência do indivíduo] indivíduo - outro/sociedade [para continuidade da espécie] sociedade - natureza [para sobrevivência da espécie] que são necessárias para o fenômeno vida. Os mecanismos fisiológicos e ecológicos são a resposta das várias espécies à resolução das relações presentes no triângulo da vida. Como disse acima, a quebra de qualquer das conexões determina o fim da espécie. E nenhum dos três elementos existe sem os demais. A natureza pode continuar sem alguma espécie. E alguma espécie poderá continuar sem outras. Mas serão as mesmas? [8] Ao longo da sua história, o homo sapiens sapiens tem acumulado meios de sobrevivência e de transcendência, que constituem o acervo de conhecimentos da humanidade. Esses se manifestam como modos de fazer e sistemas de explicações que respondem a necessidades e indagações sobre os fatos básicos da realidade: o indivíduo, o "outro"/sociedade e a natureza (imediata, planetária e cósmica). Os hominídeos são identificados há cerca de 5´ 106 de anos, na região central da África. Há cerca de 3´ 106 já se identificam instrumentos de pedra lascada, na África oriental, e mudanças comportamentais resultantes do desenvolvimento dessa tecnologia [9]. Com esses desenvolvimentos, criando instrumentos e as mudanças comportamentais resultantes, a espécie humana trouxe intermediações entre os fatos básicos da realidade:
O aparecimento dessas intermediações está identificado com a criatividade. O fazer e o saber matemático começam a se manifestar como uma estratégia para a realização dessas intermediações. A realização dessas intermediações se dá pelo conhecimento, cujo ciclo tem três etapas: a geração; a organização intelectual e social; a difusão. O conhecimento, assim conceituado, tem várias dimensões: sensorial, intuitiva, emocional, mística, racional. O conhecimento que se desenvolveu a partir das culturas mediterrâneas, caracteriza-se por ter aprofundado uma percepção do cosmos, do planeta e da natureza que vê os seres humanos como uma espécie privilegiada. Esse conhecimento acarreta um comportamento ditado por privilégios. Ao longo da história, o conhecimento originado nas culturas mediterrâneas foi, gradativamente, eliminando as dimensões sensorial, intuitiva, emocional e mística. O conhecimento com maior ênfase no intuitivo foi identificado com as artes, o místico e o emocional com as religiões e o sensorial com empirismo e suas conotações negativas. Impôs-se, como a característica por excelência do ser humano, a dimensão racional do conhecimento por ele gerado. Os vários corpos de conhecimento, estruturados segundo a dimensão racional, passaram a ser denominados ciências. A dimensão racional passou a ser identificada com ciência, com racionalidade. As demais dimensões comparecem no que são chamadas as tradições. O CONHECIMENTO MATEMÁTICO O padrão da racionalidade científica nas civilizações da bacia do Mediterrâneo passou a ser como uma forma de conhecimento que foi, a partir do século XV, genericamente denominada matemática. Mas é muito significativo que o flanco vulnerável da racionalidade científica encontra-se essencialmente na matemática. Ainda é comum tentar justificar o conhecimento matemático por si próprio, e os avanços da matemática são muitas vezes atribuídos somente à dinâmica interna desse conhecimento. Em grande parte isso se deve a quão pouco se sabe sobre a natureza do conhecimento matemático. Num trabalho recente, o matemático Barry Mazur diz que "Como toda História Intelectual, muito da História da Matemática simplesmente nunca é captada: seus principais artefatos são idéias que passam a maior parte de sua vida em um estado volátil, não registrado. Sua eventual distilação como registro escrito ocorre muito tempo depois de seu descobrimento inicial." [10] A História da Matemática, que se firmou como uma ciência somente no século passado, tem como grande preocupação o rigor da identificação de fontes que permitem identificar as etapas desse avanço. Isso afeta não só a história da matemática nas nações e populações periféricas, mas igualmente causa distorções na visão de prioridades científicas das nações dominantes. A proposta historiográfica está implícita no Programa Etnomatemática teve sua origem na busca de entender o fazer e o saber matemático de culturas marginalizadas. Mas remete sobretudo à dinâmica da evolução desses fazeres e saberes, resultante da exposição a outras culturas. Mas a cultura do conquistador e do colonizador de antanho e dos tempos atuais também evoluiu a partir de uma dinâmica de encontro. Mesmo livros elementares reconhecem, muito antes do polêmico afro-centrismo, que "[A ciência helênica] teve seu nascimento na terra dos Faraós de onde os filósofos, que ali iam se instruir com os sacerdotes egípcios, trouxeram os princípios elementares." [11] O encontro cultural assim reconhecido, que é essencial na evolução do conhecimento, não estava subordinado às prioridades coloniais como as que se estabeleceram posteriormente. O Programa Etnomatemática não se esgota no entender o conhecimento [saber e fazer] matemático das culturas periféricas. Procura entender o ciclo da geração, organização intelectual, organização social e difusão desse conhecimento. Naturalmente, no encontro de culturas há uma importante dinâmica de adaptação e reformulação acompanhando todo esse ciclo, inclusive a dinâmica cultural de encontros [de indivíduos e de grupos]. [12] Por que Etnomatemática? Poderíamos falar em Etnociência, um campo muito intenso e fértil de estudos, ou mesmo Etnofilosofia [13]. A melhor explicação para adotar o Programa Etnomatemática como central para um enfoque mais abrangente aos estudos de história e filosofia está na própria construção do termo. Embora haja uma vertente da etnomatemática que busca identificar manifestações matemáticas nas culturas periféricas tomando como referência a matemática ocidental, o Programa Etnomatemática tem como referências categorias próprias de cada cultura, reconhecendo que é próprio da espécie humana a satisfação de pulsões de sobrevivência e transcendência, absolutamente integrados, como numa relação simbiótica. A satisfação do pulsão integrado de sobrevivência e transcendência leva a desenvolver modos, maneiras, estilos de explicar, de entender e aprender, e de lidar com a realidade perceptível. Um abuso etimológico levou-me a utilizar, respectivamente, tica [de techné], matema e etno para essas ações e compor a palavra ETNO-MATEMA-TICA, ou ETNOMATEMÁTICA. O pensamento abstrato, próprio de cada indivíduo, é uma elaboração de representações da realidade e é compartilhado graças à comunicação, dando origem ao que chamamos cultura. Os instrumentos [materiais e intelectuais] essenciais para essa elaboração incluem, dentre outros, sistemas de quantificação, comparação, classificação, ordenação e linguagem. O Programa Etnomatemática tem como objetivo entender o ciclo do conhecimento em distintos ambientes. UMA PROPOSTA HISTORIOGRÁFICA Creio que é hora de adotarmos novas propostas historiográficas e epistemológicas que permitem lidar com a difícil tarefa de recuperar, na história das ciências e da tecnologia, o equilíbrio triangular que deve resultar da mescla de tradições indígenas, européias e africanas na cultura latino-americana [14]. Na busca de se procurar fundamentar o conhecimento matemático e a sua geração, na transição do século XIX para o século XX, o intuicionismo de L. E. J. Brouwer, proposto em 1906, contrapõe-se ao logicismo de Bertrand Russell e ao formalismo de David Hilbert, rejeitando justamente o tertium non datur (lei do terceiro excluído), sobre o qual se funda grande parte do pensamento matemático [15]. Igualmente atingida foi a visão de um universo newtoniano, modelo matemático por excelência do racionalismo científico, com o surgimento das mecânicas quântica e relativística, a partir de Max Planck e Albert Einstein e com as formulações de Niels Bohr e Werner Heisenberg [16]. Fundamentalmente atingida foi a percepção de uma realidade determinista e a linearidade nela implícita, obedecendo relações de causa-efeito. Abriu-se assim o caminho para as teorias geral dos sistemas e teorias do caos e da complexidade e para uma nova visão do universo. Mas possivelmente o que mais abalou a tranqüilidade resultante da identificação de racionalidade com matemática foram os resultados de Kurt Gödel que mostrou, em 1931, que é impossível provar a consistência de um sistema formal utilizando somente argumentos que podem ser formalizados no próprio sistema [17]. O conhecimento gerado pelo homem segundo os padrões de racionalidade construídos ao longo de 3.000 de cultura ocidental revelaram, graças aos instrumentos por ele próprio criado, sua fragilidade. As próprias ciências e a tecnologia moderna, muitas vezes chamada tecnociência, criaram os instrumentos que possibilitam antever o perigo de extinção da espécie. A alternativa de uma espécie modificada, que tem sido contemplada na ficção, é hoje uma possibilidade. O FATO MATEMÁTICO O conhecimento matemático se manifesta como uma estratégia para a realização das intermediações criadas pelo homem entre indivíduo, outro/sociedade e natureza, como foi dito acima. A definição de estratégias é um ato criativo por excelência [18]. Aí se manifesta a criatividade matemática. A criatividade matemática é especialmente notada na criação dos instrumentos materiais e intelectuais de intermediação. Dentre esses, estão os instrumentos propriamente ditos, as ferramentas, e as tecnologia. A matemática de instrumentos, de ferramentas e de tecnologia talvez seja a primeira manifestação de um fazer/saber matemático. Isso se manifesta numa matemática classificatória, de avaliação de dimensões [19]. Essa matemática foi essencial no desenho de artefatos de pedra lascada, na distribuição e armazenamento de alimentos, e no reconhecimento da regularidade cósmica, como notada nas alternâncias de dia e noite. A contagem de tempo aparece como uma das primeiras formas de um saber matemático, com codificações específicas [20]. Maneiras de classificar, comparar, medir, quantificar, foram evoluindo, assim como formas de comunicação, estilos de comportamento, modos de lidar com o ambiente natural para poder sobreviver e sistemas de explicações para responder a questões maiores [como?, por que?] e para transcender o momento foram evoluindo, foram sendo criadas pelos hominídeos em vários ambientes distintos e, naturalmente, de maneiras distintas. A espécie homo sapiens sapiens, que se reconhece em todo o planeta há cerca de 50.000 anos, já mostra consistência na organização de sistemas de explicações e de lidar com seu ambiente. Registro coerente desses sistemas datam de cerca de 5.000 anos e se encontram nas histórias das civilizações. São melhor estudadas as histórias das civilizações potâmicas do Nilo, do Tigre e Eufrates, do Indos e do Huang, da antigüidade mediterrânea, particularmente Grécia e Roma, e das civilizações andinas. A história da matemática no Egito, na Babilônia, em Roma e principalmente na Grécia são bem estudadas. As demais civilizações começam agora a ser melhor estudadas [21]. O objetivo deste trabalho é o fazer matemático. Na civilização ocidental conhecemos, desde a Antigüidade até os tempos modernos, os fatos matemáticos. Quais as origens desses fatos? Há duas grandes correntes. Uma diz que filósofos e matemáticos descobrem o fato que existia como resultado de um encadeamento de outros fatos. O fato matemático é assim concluído em si. A intervenção do homem é reconhecer o encadeamento e tomar decisões na sua organização. Esse é o pensamento platônico. Uma conseqüência dessa posição é que uma civilização em que todos são cegos produziria a mesma matemática que uma civilização em que todos têm uma vista acurada. Isso leva a uma visão de homem em que sua essência é uma racionalidade padrão, e o fato criado é reservado aos que atingem o domínio dessa racionalidade. Uma outra corrente diz que o homem cria novos fatos a partir de uma multiplicidade de informações captadas da realidade e que o processamento dessas informações se dá especificamente para cada indivíduo, dependendo de experiências prévias e de memória individual e coletiva. O fato criado é inconcluso em si e se realiza a partir da sua receptividade por outros indivíduos. Estou mais identificado com essa posição e assim a questão da criatividade se coloca como fundamental. Como todo fato criado, o fato matemático é, em si, inconcluso. NOTAS
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Etnopedagogia