Etnomatemática
PRODUÇÃO DE 1999
Ubiratan D`Ambrosio
TRANSDICIPLINARIDADE E A PROPOSTA DE UMA NOVA UNIVERSIDADE Neste trabalho, após reflexões sobre vida, conhecimento e transdiciplinaridade, e uma breve vista sobre a história da instituição denominada universidade, parto para a proposta de uma nova universidade. VIDA Ao longo da sua história o homo sapiens sapiens tem acumulado meios de sobrevivência e de transcendência, que constituem o acervo de conhecimentos da humanidade. Esses se manifestam como modos de fazer e sistemas de explicações e que respondem a necessidades e indagações sobre os fatos básicos da realidade: o indivíduo, o "outro"/sociedade e a natureza (imediata, planetária e cósmica). Meu ponto de partida é assumir a essencialidade mútua desses fatos. O fenômeno vida é resultado integralidade representada no triângulo da vida.
Vida é a realização desse ciclo. A existência de cada indivíduo, que se identifica com sua autonomia na busca de sobrevivência, é a ativação desse ciclo. A interrupção de qualquer dessas conexões interrompe a vida. A essencialidade mútua se manifesta nas conexões:
que são necessárias para o fenômeno vida. Os mecanismos fisiológicos e ecológicos são a resposta das várias espécies à resolução dessas relações presentes no triângulo da vida. Como disse acima, a quebra de qualquer das conexões determina o fim da espécie. E nenhum existe sem os outros. Talvez a natureza possa continuar sem alguma espécie. Mas será a mesma? [1] Com o aparecimento da espécie humana surgiram intermediações entre esses fatos:
O indivíduo e o outro são sempre diferentes. Portanto, a sociedade é constituída de indivíduos todos diferentes. A diferença resulta em contradições e conflitos. Contradições e conflitos são intrínsecos à existência. As emoções que daí resultam e as tentativas de eliminar ou mesmo resolver esses conflitos conduzem à arrogância, à inveja e à prepotência. Não se trata de acabar, mas sim equilibrar os conflitos e as contradições, respeitando as diferenças. Como nos ensina Pierre Danserau, "Pour moi, lart de vivre consiste à équilibrer ses contradictions, non à les résoudre" [2]. A ANGÚSTIA EXISTENCIAL E A ÉTICA NO MUNDO MODERNO Modismos sempre refletem a busca de alternativas sociais para corrigir os desvarios da sociedade. Na sociedade atual esses desvarios refletem o acúmulo de algumas importantes eras da história mais recente: o colonialismo (degradação do homem), o imperialismo (subordinação de culturas) e o capitalismo (uso abusivo e destrutivo de recursos humanos e naturais). Os modismos se baseiam nos sistemas de explicações parciais e dominantes no momento, e são, portanto, sistemas que resultam de um modelo cultural e científico, na verdade de um modelo de conhecimento, que se construiu justamente para justificar os desmandos das eras colonialista, imperialista e capitalista. Deve-se notar que a globalização do planeta se inicia com as grandes navegações. Não é de se estranhar que esse momento é, na verdade, o início do que se convencionou chamar "o mundo moderno": ciência moderna (Descartes e Newton), comportamento moderno (Descartes e Spinoza), monetarismo e mercado modernos (Copérnico) e colonialismo moderno. Essas mesmas manifestações do moderno criaram setores de conhecimento cujo objetivo é justificar as ações. Surgiram epistemologias convenientes para justificar as ciências, sistemas filosóficos para justificar o comportamento, economia para justificar as operações associadas à produção e ao mercado, e história para justificar o colonialismo. Ao longo da sua história, o homem tem procurado explicações sobre quem é -- e tem se acreditado o favorito de algum deus sobre o que é -- e tem se acreditado um sistema complexo de músculos, ossos, nervos e humores - sobre como é -- e tem se acreditado uma anatomia com vontade -- e sobretudo quanto pode -- tem se acreditado sem limitações à sua vontade e ambição. Na procura de entender quem é, o que é, como é, o homem constrói história, religião, ciência, arte. E na explicação do quanto pode, concebe o poder. Essas explicações determinam a construção de modos de comportamento e de modos de conhecimento. A grande angústia existencial do ser humano pode ser sintetizada no reconhecimento de sua impossibilidade de saber quem é, o que é, como é, e quanto pode. Distorções na maneira como o homem tem se acreditado têm induzido a poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância, indiferença. Como resultado temos violações da dignidade humana, que chegam até a eliminação de indivíduos e uma agressividade desmesurada contra a natureza. Chega-se então a acreditar na inviabilidade de uma sociedade eqüitativa e na irreversibilidade da depredação. Lamenta-se o que foi e procura-se partir para o novo com o pensar velho. Raramente se tenta encarar o busílis da questão: a própria questão do conhecimento, convenientemente fragmentado em disciplinas para justificar nossas ações em cada setor, assimilando a normalidade como verdade e desencorajando crítica. Acho que quem melhor descreveu as causas dessa situação foi Sri Aurobindo, quando disse: "Para a filosofia ocidental uma crença intelectual fixa é a parte mais importante de um culto, é a essência de seu significado e o que o distingue dos outros. Assim são que as crenças formuladas fazem verdadeira ou falsa uma religião [uma teoria, uma filosofia, uma ciência], de acordo com sua concordância ou não com o credo de seus críticos." (Sri Aurobindo, 1872-1950). Se atentarmos para o conhecimento associado a esse comportamento, notamos a inexistência de uma ética maior. O conhecimento progride sem uma ética maior, que deveria reconhecer o valor intrínseco do indivíduo -- vale simplesmente porque é, não pelo como é -- da necessidade absoluta do outro -- sem o que se decreta a extinção da espécie -- e da sua integração na realidade histórica e natural -- como parte essencial de um todo. Restabelecer essa ética me parece prioritário e é isso o que eu proponho na ÉTICA DA DIVERSIDADE 1 RESPEITO PELO OUTRO COM TODAS AS SUAS DIFERENÇAS; 2 SOLIDARIEDADE COM O OUTRO NA SATISFAÇÃO DE NECESSIDADES DE SOBREVIVÊNCIA E DE TRANSCENDÊNCIA; 3 COOPERAÇÃO COM O OUTRO NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO NATURAL E CULTURAL COMUM. Justificam-se alguns comentários. O respeito que proponho não é por ter "modelado" o outro ao que me agrada, não é porque ele me espelha, não é porque eu o converti. Muito do que mais nos tem chocado no comportamento do indivíduo e da sociedade é uma violação de 1. Desde a educação castradora, magnificamente dramatizada por Anthony Burgess/Stanley Kulbrick no Laranja Mecânica (1971), até a desejada e procurada manipulação genética de seres humanos, já realizada com espécies muito próximas a nossa e mostrada tão bem por Ridley Scott no Caçador de Andróides (1982), se busca o respeito transformação do outro, pela produção de um outro. Aceita-se o outro desde que tenha se convertido -- e daí a origem das grandes violências de natureza religiosa e gremial. A solidariedade com o outro não se manifesta apenas na satisfação de necessidades materiais. Não basta dar o pão, é necessário também dar o ombro para o outro chorar, ou dançar e cantar nas necessidades emocionais. Comer, mas comer junto, comungar. Daí todo o sentido da eucaristia e de outras formas de agradecimento/sacrifício, como a comida de santo depois do culto do candomblé. Não é para saciar a fome. A cooperação no sentido amplo é que deu origem ao homo faber: uma pedra lascada ou uma alavanca são modelos de cooperação homem-natureza. Com o alimentar-se se dá o mesmo. Uma vida -- planta ou animal -- se extingue para que a outra continue. A própria vida é intrinsecamente cooperativa: uma célula é destruída para a sobrevivência da outra. Vida só é possível porque há cooperação no sentido mais amplo. Claro, isso tem profunda influência nos nossos modelos de comportamento. A Ética da Diversidade é um exemplo do que considero uma ética maior. Alguém perguntará: mas e os credos, onde estão Deus, Cristo, Maomé, Buda, e tantos outros? Naturalmente, a religião tem sido na história da humanidade, juntamente com a arte, o caminho para a transcendência. Mas a pergunta maior se refere ao que move o homem na busca de sobrevivência e de transcendência, que são a essência da sua existência e de seu comportamento. A crítica ampla deve necessariamente ser holística. Porém a culminância do moderno acabou sendo uma fragmentação do comportamento humano em "componentes": racional, social, econômico. Parafraseando Allain Bloom, poderíamos dizer que o homem moderno é caracterizado por sua crença de ser o trabalho necessário para produzir bem estar; por seguir suas inclinações com moderação, não porque seja moderado mas porque ele reconhece as vantagens dessa moderação; por respeitar o direito dos outros para assim ter respeitados os seus; por obedecer a lei que ele próprio fez em seu próprio interesse. Na verdade aí se reconhece a essência de uma moralidade interesseira pois, citando Bloom, "para os pobres, os fracos, os oprimidos -- a maioria esmagadora da humanidade [essa] é a promessa de salvação" [3]. Fala-se muito em energia. Vejo energia como a essência da busca incessante e integrada de sobrevivência e de transcendência. Sobreviver se dá no presente, que é a interface de passado e futuro. Transcender é mergulhar no passado e incursionar no futuro. Daí se originam os sistemas de explicação -- história e as religiões -- e os sistemas de divinação e de predição - os oráculos e as ciências. Tudo se integra nas religiões e nas ciências, que transcendem tempo, e nas comunicações e nas artes, que transcendem espaço. E obviamente, transcender tempo e espaço são complementares. Portanto, as comunicações, as religiões, as artes e as ciências, que representam estilos de conhecimento, andam juntas, não se separam. Basta um olhar para a evolução da humanidade para se convencer que esses estilos de conhecimento tem sempre se alimentado mutuamente. A filosofia moderna tentou situar essa totalidade em setores específicos do cérebro que cuidam do sensorial, do místico, do emocional, do intuitivo e do racional! CONHECIMENTO Falei acima das intermediações criadas pela espécie humana para relacionar indivíduo, sociedade e natureza: instrumentos e tecnologia entre indivíduos e natureza emoções e cultura entre indivíduo e outro/sociedade produção e divisão de trabalho entre sociedade e natureza A realização dessas intermediações se dá pela comunicação e pelo conhecimento. O conhecimento, assim conceituado, tem várias dimensões: sensorial, intuitiva, emocional, mística, racional. O conhecimento que se desenvolveu a partir das culturas mediterrâneas se caracteriza por ter aprofundado uma percepção do cosmos, do planeta e da natureza que vê os seres humanos como uma espécie privilegiada. Esse conhecimento acarreta um comportamento ditado por privilégios. Ao longo da história, o conhecimento originado nas culturas mediterrâneas foi, gradativamente, eliminando as dimensões sensorial, intuitiva, emocional e mística. Impôs-se, como a característica por excelência do ser humano, a sua dimensão racional. O conhecimento com maior ênfase no intuitivo foi identificado com as artes, o místico e o emocional com as religiões e o sensorial com empirismo e suas conotações negativas. Os vários corpos de conhecimento, estruturados segundo a dimensão racional, passaram a ser denominados ciências, que acabou sendo identificada com conhecimento. As demais dimensões comparecem no que são chamadas as tradições. O flanco vulnerável da racionalidade científica foi exposto de forma mais flagrante justamente pela ciência identificada como o padrão dessa racionalidade, que é a matemática. Na busca de se procurar fundamentar o conhecimento matemático e a sua geração, na transição do século XIX para o século XX, o intuicionismo de L. E. J. Brower, proposto em 1906, contrapõe-se ao logicismo de Bertrand Russell e ao formalismo de David Hilbert, rejeitando justamente o tertium non datur (lei do terceiro excluído), sobre o qual se funda grande parte do pensamento matemático [4]. Uma nova ciência da cognição começou então a se delinear. Igualmente atingida foi a visão de um universo newtoniano com o surgimento das mecânicas quântica e relativística, a partir de Max Planck e Albert Einstein e com as formulações de Niels Bohr e Werner Heisenberg [5]. Fundamentalmente atingida foi a percepção de uma realidade determinista e a linearidade nela implícita, obedecendo relações de causa-efeito. Abriu-se assim o caminho para as teorias geral dos sistemas e teorias do caos e da complexidade e para uma nova visão do universo. Não menos atingida foi a visão de homem, com a percepção da essencialidade do outro no reconhecimento do seu próprio eu. Os trabalhos pioneiros de S. Freud sobre a histeria abriram o caminho para uma nova ciência da mente e do comportamento. O homem começa a se reconhecer como uma entidade individual, social, planetária e cósmica a partir dessas novas visões de cognição, da mente e do comportamento, e do cosmos. A civilização ocidental tem privilegiado o existencial e o factível e construído sistemas de conhecimento visando sua sobrevivência. Criaram as intermediações que deram origem às ciências e a conseqüente tecnologia. Mas, paradoxalmente, a sobrevivência do indivíduo e da espécie, representada pelo triângulo da vida, se sente ameaçada justamente pelas intermediações criadas pela espécie. As próprias ciências e a tecnologia, que hoje é chamada tecnociência, criaram os instrumentos que possibilitam antever o perigo de extinção da espécie. A alternativa de uma espécie modificada, que tem sido contemplada na ficção, é hoje uma possibilidade. Pergunta-se porque esse roteiro na busca do conhecimento ocidental chegou a perspectivas tão assustadoras? Pura e simplesmente, porque o caminho da humanidade não tem tido sucesso? As próprias ciências reconhecem sua insuficiência para responder a essas questões básicas e para encontrar um novo caminho. Vamos encontrar, metaforicamente, essa conclusão num dos mais importantes resultados científicos desse século, mais uma vez justamente na ciência que, como dissemos acima, tem sido apontada como a representante por excelência do racionalismo ocidental, a matemática. Kurt Gödel mostrou em 1931 que é impossível provar a consistência de um sistema formal utilizando somente argumentos que podem ser formalizados no sistema [6]. É necessária a busca de outros caminhos. O que teria causado o desvio de uma promessa de grandes realizações para a ameaça de extinção? DAS DISCIPLINAS À TRANSDISCIPLINARIDADE É na história do conhecimento que vamos identificar as distorções e os novos caminhos possíveis. Obviamente, essa história não pode se restringir a uma visão parcial, epistemologicamente comprometida. Torna-se assim necessário o diálogo que começa a se abrir entre as ciências e as tradições. A primeira lição que aprendemos da história é que a busca de sobreviver se complementa com a busca de transcender o existencial (passado e futuro) e o factível (explicável e inexplicável). A busca de compreensão do mundo na sua integralidade exige que as dimensões de sobrevivência e de transcendência se complementem. A organização atual dos diversos corpus de conhecimento repousa nas disciplinas, caracterizadas pelo desenvolvimento de métodos específicos para conhecer objetos de estudo bem definidos. Rapidamente o conhecimento disciplinar mostrou-se insuficiente para lidar com os complexos fenômenos da realidade e pratica-se um modelo multidisciplinar, no qual se procura reunir resultado obtidos mediante o enfoque disciplinar para lidar com situações mais complexas. Igualmente, o enfoque multidisciplinar foi incapaz de explicar e de lidar com o crescente reconhecimento da complexidade dos fenômenos naturais e sociais. É curioso notar que a partir de uma visão global dos fenômenos foi proposta a organização disciplinar dos conhecimentos e imediatamente a multidisciplinar. Esse próprio enfoque criou a possibilidade de se reconhecer a complexidade dos fenômenos, que resistiam aos métodos das várias disciplinas isoladamente. Surge então a interdisciplinaridade, na qual não apenas se transferem e se combinam resultados de algumas disciplinas, mas também se combinam métodos de várias disciplinas e, conseqüentemente, se identificam novos objetos de estudo. Chega-se assim a possibilidades de explicações de inúmeros fenômenos e de realizações notáveis. Os espantosos avanços das ciências e da tecnologia, produto da interdisciplinaridade, dão ao homem a ilusão de omnipotência e de omnisciência. Há limites para o conhecimento? Haverá a possibilidade de um sistema total de conhecimento ou, como costumam dizer os físicos, de uma teoria de tudo? Mas mesmo na prática interdisciplinar, que hoje, com raras exceções, está presente na pesquisa científica, e que procura explicações finais, não se supera a angústia da ameaça de extinção que pesa sobre a humanidade. Haverá a possibilidade de outras opções além da interdisciplinaridade? Não se pode excluir a possibilidade de existirem outros sistemas de conhecimento nos quais a fragmentação do saber não tenha sido tão rígida quanto o que vemos no sistema de conhecimento ocidental. Esses sistemas de conhecimento, supérstites em algumas sociedades, muitos aprimorados, outros desfigurados pela exposição com a civilização ocidental, encontram-se nas tradições. É bem possível que esses sistemas poderão contribuir para a superação do impasse existencial. Do encontro das ciências e das tradições resultam transformações profundas dos sistemas de explicações. Essas transformações têm sido notadas no desenvolvimento científico e tecnológico, nos sistemas de comunicação e de transporte, nos meios de produção e no próprio conceito de propriedade. Um questionamento freqüente se refere à universalidade dessas transformações. Há indicadores de que esse encontro é efetivamente um movimento planetário, prenúncio de uma civilização planetária. O conhecimento é então encarado como modos, estilos, técnicas de explicar, de conhecer, de lidar com a realidade como ela se manifesta em distintos ambientes naturais e culturais. Obviamente, esses modos, estilos e técnicas não se realizam no modelo disciplinar, nem mesmo nos seus variantes da multidisciplinaridade e da interdisciplinaridade. Exigem uma visão transdisciplinar do conhecimento [7]. A transdisciplinaridade leva o indivíduo a tomar consciência da essencialidade do outro e da sua inserção na realidade social, natural e planetária, e cósmica. Uma conseqüência imediata da essencialidade é que a inserção só pode se dar através de um relacionamento de respeito, solidariedade e cooperação com o outro, consequentemente com a sociedade, com a natureza e com o planeta, todos e tudo integrados na realidade cósmica. Esse é o despertar da consciência na aquisição do conhecimento. A grande transformação pela qual passa a humanidade é o encontro do conhecimento e da consciência. A PROPOSTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE Qual a oportunidade que a academia tem tido de refletir sobre essas questões? É possível que o "Fórum de Ciências e Cultura da UNESCO", que se reuniu em Veneza em 1986, tenha sido a primeira grande oportunidade de se propor uma visão transdisciplinar. O tema do fórum, "Encontro das Ciências e das Tradições", e a composição de sua participação foram, inegavelmente, fatores essenciais para uma nova postura com relação ao conhecimento. A Declaração de Veneza, que foi um resultado do Forum, abriu as possibilidades de reflexões transdisciplinares [8]. Claro que a transdisciplinaridade não constitui uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências e muito menos uma nova postura religiosa. Nem é, como muitos insistem em mostrá-la, um modismo. O essencial na transdisciplinaridade reside numa postura de reconhecimento que não há espaço e tempo culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar, como mais correto ou mais certo ou mais verdadeiro, complexos de explicação e convivência com a realidade que nos cerca. A transdisciplinaridade repousa sobre uma atitude aberta, de respeito mútuo e mesmo humildade, com relação a mitos, religiões e sistemas de explicações e conhecimentos, rejeitando qualquer tipo de arrogância e prepotência. A transdisciplinaridade é, na sua essência, transcultural. Exige a participação de todos, vindo de todas as regiões do planeta, de tradições culturais e formação e experiência profissional as mais diversas. A essência da proposta transdisciplinar parte de um reconhecimento que a atual proliferação das disciplinas e especialidades acadêmicas e não-acadêmicas conduz a um crescimento incontestável do poder associado a detentores desses conhecimentos fragmentados, podendo assim agravar a crescente iniquidade entre indivíduos, comunidades, nações e países. Além disso, o conhecimento fragmentado dificilmente poderá dar a seus detentores a capacidade de reconhecer e enfrentar os problemas e situações novas que emergem de um mundo a cuja complexidade natural acrescenta-se a complexidade resultante desse próprio conhecimento transformado em ação que incorpora novos fatos à realidade, através da tecnologia. A espécie homo sapiens sapiens, identificada no planeta há cerca de 100.000 anos é extremamente jovem quando comparada com hominídeos, que deixaram sua marca desde 4 500 000 anos atrás. Mesmo esses hominídeos tiveram uma existência limitada quando comparados com espécies como os dinossauros que habitaram o planeta por cerca de 100 milhões de anos. Quando refletimos cosmicamente, é perturbador notar que nossa espécie, inteligente e capaz de comunicar-se em todo e mesmo fora do planeta, tem apenas 100 000 anos de experiências acumuladas num planeta cuja existência é traçada a 4 e meio bilhões de anos. Somos uma dentre milhões de espécies vivas que vêm surgindo e se extinguindo na Terra há muito tempo. Estima-se que a vida teve início há cerca de 3 e meio bilhões de anos e desde então sabe-se de uma verdadeira ciranda de espécies aparecendo e se extinguindo. E quando nos situamos no cosmos, agora acessível por meio de modernas sondas espaciais, a brevidade da existência de nossa espécie é alarmante quando comparada com a estimativa de 15 bilhões de anos desde a criação cósmica big-bang ou equivalentes [9]. Nesse curtíssimo espaço de tempo a espécie acumulou conhecimentos e capacidade de ação cada vez mais aprofundados sobre os fatos da realidade. E no quase instante de nossa existência podemos dominar esses conhecimentos e capacidades. Tanto poder concentrado em cada um de nós pode definir um paraíso ou um inferno para nossa efêmera existência. E vê-se que com a força de toda uma geração, o ritmo de crescimento dessas capacidades se acelera ... com o risco igualmente acelerado de perdermos a visão do todo à medida que nos aprofundamos cada vez mais nas minúcias e detalhes associados a disciplinas, subdisciplinas e especialidades. A ameaça associada a uma aparente irreversibilidade do processo é compensada por uma tomada de consciência da fragilidade desse estilo de aquisição de conhecimentos e capacidades. A própria evolução do modelo ameaçador nos revela as suas inadequações, as suas distorções e a sua impossibilidade de uma visão, global e holística, do homem como um integrante, embora diferenciado, da totalidade cósmica. A única alternativa que resta é a de nos integrarmos nessa totalidade cósmica a partir da integração em várias etapas, a começar pela nossa integração pessoal, como indivíduos. Mente e corpo, consciente e inconsciente, o material e o espiritual, nosso saber e fazer, enfim todas essas e outras dicotomias com as quais nos habituamos a nos ver na nossa mais profunda intimidade deverão ser superadas. Temos que vencer a dominância do ser (substantivo) sobre o ser (verbo). Ao superar essa redefinição do eu, estaremos em condição de redefinir nossas relações com o outro. A partir de então estarão abertas as portas de um novo relacionamento com diferentes, com a natureza como um todo e com o cosmos na sua totalidade. A busca de uma sociedade integrada no entorno familiar -- isto é, o outro mais próximo -- no entorno comunitário -- isto é, a nossa tribo -- no entorno nacional -- isto é, o nosso país -- são etapas necessárias para se chegar à integração da humanidade como um todo -- isto é, o nosso planeta. Poderemos então nos situar num contexto muito mais amplo, transcender nossa existência tão efêmera, e avaliar nossa dimensão como indivíduos na realidade cósmica. Então espera-se que arrogância, inveja, prepotência cedam lugar a respeito pelo diferente, à solidariedade com o outro, à cooperação na preservação do patrimônio comum. Eliminar arrogância, inveja, prepotência e adotar respeito, solidariedade, cooperação é a idéia de base na busca de uma nova espiritualidade, ancorada num sistema de conhecimento transdisciplinar. Busca-se um pacto moral entre todos os homens definitivamente interessados numa nova perspectiva de futuro para a humanidade, através de uma ética total. O princípio essencial: restabelecer a integridade do homem e do conhecimento, integrando sensorial + místico + emocional + intuitivo + racional na totalidade mente + corpo + cosmos mediante a ética da diversidade: respeito, solidariedade e cooperação. A UNIVERSIDADE AO LONGO DA HISTÓRIA Todos os povos pensados como a mesma espécie humana e todas as culturas pensadas como integrando uma civilização planetária exigem um novo pensar e um novo relacionamento de saberes e de fazeres que, muitas vezes, se manifestam diferentemente. Na era colonial havia entre saberes e fazeres uma relação de prepotência e de marginalização e mesmo rejeição de formas de conhecimento próprias dos povos conquistados. As novas relações internacionais e a intenção de recuperar a dignidade cultural de todos os povos, manifesta na Declaração dos Direitos do Homem, exigem o diálogo intercultural e interdisciplinar como passos essenciais para a humanidade transcultural e o conhecimento transdisciplinar [10]. A transculturalidade e a transdisciplinaridade possibilitam a sobrevivência da espécie humana, com dignidade. Mas elas necessitam um ambiente para prosperarem. Que ambiente será esse? Desde os tempos pré-históricos tem-se notado que os homens buscam um espaço para o intercâmbio de idéias e a difusão do conhecimento acumulado. É curiosa a descrição que o arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio fez, no século I a.C., da origem da conversação: "Os homens de antigamente eram nascidos como bestas selvagens, nas florestas, cavernas, e grotas, e viviam selvagemente. Com o passar do tempo, as árvores densas em um certo lugar, arrancadas por tempestades e ventos, e esfregando seus galhos um contra o outro, pegaram fogo, e assim os habitantes do lugar fugiram, aterrorizados pelas chamas furiosas. Depois que ela se acalmou, eles se aproximaram, e observando que se sentiam muito confortáveis estando frente ao fogo, acrescentaram a ele galhos e, assim avivado, ele atraiu outras pessoas para seu redor, mostrando quanto conforto elas poderiam obter dele. Nesse encontro dos homens, num tempo em que os sons emitidos eram puramente individuais, dos hábitos diários eles se fixaram em palavras articuladas à medida que elas iam chegando; então, indicando por nome as coisas de uso comum, o resultado foi que deste modo puramente aleatório eles começaram a falar, e assim se originou a conversação de um com o outro. Portanto, foi a descoberta do fogo que originalmente deu origem ao encontro dos homens, às assembléias deliberativas, e ao relacionamento social." [11] Ao ar livre ou nas cavernas, nas conversas ao pé do fogo, nas famílias e nas assembléias, nas academias e nas escolas, inicia-se a organização e a difusão de conhecimentos que são gerados por cada indivíduo, através do processamento de informações recebidas da realidade e combinadas com informações prévias armazenadas na memória. Como se dá esse processamento? Ninguém sabe. Essa é um das questões que vêm sendo abordada com grande intensidade por pesquisadores de várias especialidades. Embora haja concordância que a linguagem tenha tido um papel fundamental no desenvolvimento das capacidades cognitivas do homem, o silêncio tem se revelado uma importante estratégia na elaboração do conhecimento. Particularmente, o silêncio em companhia de outros. Não vou abordar esse aspecto da elaboração do conhecimento, mas falar dos ambientes reconhecidos como academias e variantes, restringindo-me à tradição que se originou das civilizações em torno do Mediterrâneo e que serviram de modelo para os sistemas educacionais de todo o planeta nos dias de hoje. Nossa história começa na antigüidade grega e romana. Platão transmitia suas idéias num local onde teria sido sepultado o herói mitológico Academo. Etimologicamente, seu nome vem de héka (= longe, distante) e dêmos (= povo). Academo é "o que age independentemente" [12]. E daí o nome academia. As academias, característica da cultura grega, floresceram no Império Romano. Mas, com a cristianização do Império Romano, no século IV, esse ambiente privilegiado pouco contribuía para a construção de uma filosofia cristã, que foi o grande problema enfrentado pela Igreja no seu início. A expansão do cristianismo, sobretudo nas civilizações pagãs do norte da Europa, fazia-se sem maiores problemas. Mas a conquista da intelectualidade mediterrânea era um grande obstáculo para a expansão do cristianismo. As academias ofereciam um pensamento contrário à doutrina cristã que se esboçava. Foi necessário criar um outro espaço onde a intelectualidade pudesse avançar nas suas reflexões. Esse espaço foram os mosteiros. Etimologicamente, a palavra mosteiro é derivada do grego e seu significado é viver só, isolado. O objetivo dos mosteiros era a construção da doutrina cristã e a sua fundamentação filosófica. O conhecimento era construído com essa finalidade. O imaginário sobre o qual repousavam essas reflexões era extremamente rico. Esse espaço privilegiado era subordinado à Igreja. Obviamente, era necessário depurar as fontes sobre as quais estava sendo construído o conhecimento cristão. Nessa depuração excluiu-se todo o corpus filosófico grego. Os monges detinham esse conhecimento e sua difusão se fazia através de filtros convenientes à Igreja. Apesar disso, ou talvez justamente por isso, a Idade Média foi uma época de grande criatividade. Sem os instrumentos intelectuais que haviam sido construídos pelos filósofos gregos, os monges criaram o novo. O imaginário cristão, alimentado pelo encontro com os pagãos, praticamente não tinha limites. Sabe-se pouco sobre o que se passava com a intelectualidade de outras civilizações e quais eram os ambientes privilegiados para essas reflexões e para a geração, organização e difusão do conhecimento. São interessantíssimos os espaços para as argumentações na China [13]. A "Casa da Sabedoria" de Bagdá foi fundada no século IX. Ali se deu a fase mais importante da matemática árabe, com o desenvolvimento do sistema aritmético indo-arábico e a criação da álgebra. Na transição do 1° para o 2° milênio organizaram-se na Europa as cruzadas. Como resultado dessa importante empresa, os monges travaram contato com outro conhecimento, essencialmente com a filosofia grega traduzida, aprimorada e elaborada pela intelectualidade muçulmana. Ficou evidente a possibilidade de reconciliação da filosofia cristã com a filosofia grega. Para isso tornava-se necessário o encontro "cauteloso" dos intelectuais cristãos, na sua quase totalidade monges, com intelectuais hereges. A busca de um espaço no qual hereges poderiam professar seu conhecimento para benefício dos monges, sem macular o ambiente sagrado e restrito dos mosteiros, deu origem às universidades, cuja denominação vem do latim universitas, que significa universalidade, generalidade, totalidade. As primeiras universidades vão surgindo: Bolonha em 1088, Paris em 1120 e Oxford em 1130. Outras se seguem. Esses espaços favoráveis à reflexão passam a ser controlados pela Igreja. Com Thomás de Aquino (1225-1274) se completa um período cujo maior esforço era construir uma teologia cristã, com a publicação da obra maior da Idade Média, que é a Summa Theologica. A partir das reflexões de Aristóteles, reconduzido à academia graças a Avicena (980-1037), Averróes (1126-1198) e outros pensadores islâmicos, explicar o movimento tornou-se o foco das universidades medievais. O próprio Thomás de Aquino dedicou-se a isso. Ao afirmar que "nada de muita importância pode ser conhecido das ciências sem matemática", Roger Bacon (ca 1219-1292} revela um novo estilo nas especulações dos monges cientistas. A afirmação de Aristóteles de que quanto mais pesado o corpo, maior sua velocidade de queda, passou por contestações. Os estudos de Thomas Bradwardine (ca 1290-26/08/1349) e de seus colegas no Merton College (William Heytesbury, Richard Swineshead, John Dumbleton et al) são típicos dessa contestação. Esse novo pensar foi o resultado de cerca de 400 anos de concentração do pensamento universitário na busca de entender e explicar o fenômeno do movimento. Cabe observar que o mundo é muito maior que a Europa e os seus prolongamentos em outras terras. O que se passava no pensar de outras civilizações? Como se desenvolveram os ambientes de reflexão e desenvolvimento de técnicas e artes de explicar, de conhecer, os saberes e fazeres em diferentes ambientes culturais? Sabemos muito pouco sobre o que seriam os equivalentes a universidades e mesmo a sistemas escolares em outras culturas civilizações [14]. No texto sobre "A Universidade de Ontem e de Hoje", publicado em 1964, o grande educador brasileiro Anísio Teixeira comenta sobre as comunidades de mestres e estudantes das universidades, que mantinham o mesmo estilo de isolamento e distanciamento que prevalecia nas academias e nos mosteiros. Mas Teixeira nota que "essa atitude de um puro isolamento de algum modo se corrigia com a formação do profissional, em pequeníssimo grau com a formação do clero, um pouco mais com a formação do bacharel de direito, substancialmente com a formação do médico e, muito depois, em grau mais acentuado, com a formação do engenheiro. Atentemos, contudo, que essa formação profissional não constituía o coração da universidade, mas sua extensão ou desenvolvimento, pois, onde se guardou a tradição da cultura geral, a formação universitária era a da cultura clássica e somente mais tarde relativa à ciência experimental. Mesmo depois que a universidade aceitou a ciência experimental, nem por isso se rendeu à pesquisa da ciência aplicada e se deixou envolver nos negócios do mundo, mas insistiu em acentuar o caráter "desinteressado" de sua busca e os objetivos "nobres" do saber pelo saber, do saber como fim em si mesmo." [15] Enquanto a atitude do saber desinteressado de qualquer aplicabilidade prevalecia nas universidades, a Europa passava por um intenso processo de urbanização, marcado sobretudo pela expansão do cristianismo no início do milênio, quando a catedral tornou-se o centro urbano da região. Com isso prosperam a arquitetura e as profissões associadas, as artes e o comércio. As guildas, que poderiam ser comparadas ao que hoje chamamos universidades alternativas, se encarregavam de avançar e transmitir esse saber. O caso das ciências médicas teve características muito especiais, sobretudo no final da Idade Média e na entrada do Renascimento. A intensificação de visitas a outras terras e o grande fluxo migratório causado pela urbanização mudou o cenário da saúde. Epidemias implacáveis, como a peste, se generalizaram. Um grande esforço na área da saúde aproximou a universidade de problemas do cotidiano. O conhecimento médico na Europa era ainda fortemente dominado por Galeno. A absorção dos especialistas de formação islâmica, provenientes de Portugal e da Espanha, foi notável nas universidades européias durante os séculos XV e XVI [16]. Da mesma maneira, grandes obras públicas, a urbanização e a engenharia em geral, a metalurgia e a própria indústria de armamentos iriam desafiar os acadêmicos e estimulá-los a uma aproximação com a realidade. O paradigma científico incorporou-se ao pensamento europeu, tanto nos ambientes de reflexão teórica, basicamente interessados no saber pelo saber, como no cotidiano profissional. Procedeu-se à identificação do ser humano com o ser racional e do ser racional com o ser científico. As dimensões mística, sensorial, intuitiva e emocional do conhecer foram subordinadas a dimensão racional. O comportamento individual e social foi subordinado ao paradigma que se proclamou ser a essência do ser humano. A universidade, encastelada nos resultados da revolução científica, assistiu, sem se aperceber, a chegada das três grandes revoluções que marcaram novas direções da humanidade: a revolução americana [novo conceito de poder civil e governança], a revolução francesa [novos ideais para a humanidade] e a revolução industrial [novos meios de produção e de trabalho]. A universidade esteve ausente de todas. Procurando responder às grandes transformações resultantes dessas revoluções, particularmente seus reflexos na vida urbana e na organização militar, criaram-se na França modelos alternativos de educação superior, as Grandes Écoles. Destacam-se a École Nationale de Ponts et Chaussées, em 1747; a Écoles di Génie de Mezières, em 1749; a École Militaire de Paris, em 1753; e a École Polytéchnique de Paris, em 1794. As universidades continuaram no seu estilo próprio. No Brasil, o modelo francês das Grandes Écoles foi adotado após a chegada da família real, em 1808. Esse modelo perdurou até 1933, quando foi criada a Universidade de São Paulo. Em meados do século XIX, as universidades iniciam um processo de modernização. A Universidade de Manchester é fundada em 1851 respondendo ao novo momento tecnológico. A Universidade de Berlim, renovada por proposta de Alexander von Humboldt, é moderna na organização e estabelece o sistema de departamentos e a carreira acadêmica, buscando um saber atual e moderno. Mas sempre predominando o saber pelo saber. Lernfreiheit (liberdade de aprender) e Lehrfreiheit (liberdade de ensinar), já esboçados na universidade medieval, exprimem o caráter de completa autonomia no saber e no fazer da universidade. A proposta de John Henry Newman para a Universidade de Dublin, que não foi posta em prática, excluía a pesquisa e era inteiramente devotada ao ensino. Mas, não visava qualquer fim utilitário. No meu entender, a inovação mais importante deu-se nos Estados Unidos. A Lei Morrill (1862) propôs um outro conceito de educação superior, que via na universidade o centro onde se fazia avançar o conhecimento e se preparavam os recursos humanos para as necessidades mais imediatas do novo país. Assim, a universidade se desviava da tradição elitista, abrindo oportunidades de acesso a toda a população. Essas universidades públicas, chamadas land-grant colleges, tiveram grande influência no desenvolvimento da agricultura e da mineração, sendo propulsoras do progresso agrícola e industrial dos Estados Unidos. Rapidamente, essas instituições incorporaram o espírito e a organização da Universidade de Berlim. Os irmãos Abraham e Simon Flexner tiveram um papel importantíssimo ao compatibilizar ensino, pesquisa e prestação de serviços como os objetivos solidários da universidade moderna. A modernização das universidades européias, desde a criação das Grandes Écoles na França até a implantação e subsequente modernização dos Land-Grant Colleges nos Estados Unidos, resultou na universidade de hoje. O mesmo modelo prevalece em praticamente todo o mundo, com os objetivos declarados e solidários de ensino, pesquisa e prestação de serviços. Com esse espírito foi criada, tardiamente, a universidade brasileira, a partir da Universidade de São Paulo (1934) e da Universidade do Distrito Federal (1935). A NOVA UNIVERSIDADE As instituições estão caminhando rapidamente para uma planetarização. As nações terão que subordinar suas decisões e instituições a objetivos maiores e a interesses planetários. Poucas instituições nacionais poderão se identificar como soberanas. Esse talvez seja o efeito mais positivo da globalização dos sistemas econômicos. Um indicador seguro dessa planetarização é o questionamento da jurisdição nacional sobre crimes que afetam a humanidade como um todo. Por exemplo, o tribunal de Nurembergue após a Segunda Guerra Mundial. Igualmente, epidemias, controle ambiental, terrorismo, drogas e inúmeros outros fatos estão sendo tratados por ações subordinadas a legislações supra-nacionais. A organização social de cada nação está subordinada a uma ordem planetária. E sabemos que a organização social é o grande substrato dos sistemas escolares. Parafraseando V. V. Raman, do Rochester Institute of Technology, pode-se afirmar que as metas para o novo século devem ser a identificação do que é comum na busca de verdade e sabedoria entre todas as culturas e civilizações do planeta, aprendendo um do outro a corrigir os equívocos, a resistir à tentação de considerar as percepções das nossas tradições como sendo, de algum modo, superior a outras, a reconhecer que nossos ancestrais erraram gravemente em muitas decisões e ações, e a buscar em comum soluções para os muitos problemas que a humanidade enfrenta num espírito de harmonia e dedicação coletiva. Essa é, em outras palavras, a ética maior que tenho proposto: respeito pelo outro com todas as diferenças; solidariedade com o outro na satisfação de sua busca de sobrevivência e de transcendência; cooperação com o outro na preservação do bem e do patrimônio comum. Para atingir esses objetivos maiores, a comunicação ampla será fundamental e a utilização de recursos e experiências acumuladas por toda a humanidade no curso de sua história, serão indispensáveis. Na história da humanidade como um todo, são evidentes os acertos e os equívocos apontados que levaram ao estado de iniqüidade, de agressão contra a natureza, de prepotência e de arrogância que se notam entre grupos e agremiações, comunidades, nações e mesmo blocos de países. Esses acertos e equívocos devem ser expostos e conhecidos por todos. As barreiras construídas pelas histórias nacionais, justamente para encobrir os equívocos e destacar os acertos, são o primeiro obstáculo a ser superado. Experiências sendo conduzidas devem ser compartilhadas, bem como propostas de explicações para os incontáveis fatos e fenômenos que ainda desafiam o conhecimento. As novas possibilidades para um mundo feliz só se concretizarão como resultado de um esforço coletivo. O que sabemos é apenas uma fração do que está para ser descoberto [17]. Exemplos de que esse esforço coletivo é possível são o Projeto Genoma Humano, a Estação Espacial Internacional e a Internet. Usei justamente esses exemplos, pois neles estão focalizadas as críticas e os temores da era da globalização. O Projeto Genoma Humano é apontado como abrindo caminho para manipulações genéticas e uma possível "depuração" racial. Sem dúvida trará nova conceituação de raça e de etnia, com profundas implicações sociais. Mas isso não representa algo intrínseco ao projeto, mas sim o seu mau uso, que pode ser controlado com o controle universal do mesmo. Depurações raciais, até o genocídio, têm sido freqüentes na história e sempre associadas à divisão da humanidade em famílias, raças e crenças, línguas, nações. Da mesma maneira, a Estação Espacial Internacional é vista como uma grande base militar. Mas se todos estiverem igualmente envolvidos, essa base estará dirigida contra quem? A Estação Espacial possibilitará a criação de laboratórios conduzindo importantes experimentos sobre saúde e utilização de materiais na indústria. Argumenta-se que a Internet será controlada por grandes grupos, possibilitando restrições à informação e à comunicação. Particularmente no que se refere à informação e à comunicação, o problema não está nos meios, mas na estrutura de poder vigente. Não eram os manuscritos medievais acessíveis apenas aos monges? Após Gutenberg, livros ficaram disponíveis ao público. Ler tornou-se uma necessidade para acesso ao conhecimento. Pouco depois surgiu o controle, o Index. Mas a facilidade da imprensa abriu possibilidades de uma imprensa clandestina. A censura ampliou-se, mas foi ineficaz. Hoje, a censura à imprensa está abolida. Com a comunicação passou-se algo semelhante. Silenciar o insubmisso sempre foi a arma mais eficaz do poder. Para silenciar as heresias e a agitação revolucionária de Giordano Bruno e de Tupac Amaru foi necessário cortar suas línguas antes de matá-los. É importante notar que no caso de Tupac Amaru, a rebelião comandada por ele teve fortes bases culturais. A religião havia sido mais facilmente absorvida que a língua. E o comportamento revolucionário mostra uma grande influência da escolaridade que havia sido imposta pelos espanhóis, sobretudo a uniformidade da língua como um fator de cooptação do conquistado. Uma das medidas importantes da rebelião foi proibir o uso do espanhol [18]. Não se pode deixar de lembrar que na Espanha franquista, falar catalão era proibido, podendo levar à prisão e até ao fuzilamento. A Voz da América atravessou a Cortina de Ferro e a Rosa de Tóquio teve mais sucesso que a infantaria japonesa na 2ª Guerra Mundial. A TV pirata derrubou o monopólio estatal na Europa. As rádios piratas e grampos telefônicos são impossíveis de serem controladas e têm causado uma transparência sem precedentes nas conversações. Personagens públicas são expostas ao público. Logo estaremos vendo a ação dos hackers desnudando a privacidade de cada indivíduo. A linguagem se torna aberta. O que é, afinal, a linguagem? Quais as relações entre linguagem, cognição e desenvolvimento das artes e técnicas na evolução da espécie? Sabemos muito pouco. É importante dispormos de algumas hipóteses sobre como isso se dá para podermos tirar todo o benefício que os novos meios nos oferece. Quais as grandes transformações que esses novos meios trarão ao processo cognitivo? [19] As tentativas de controle dos meios de comunicação e da Internet, semelhantemente ao que se passou com a comunicação oral e escrita, são impossíveis de serem mantidas. As primeiras tentativas de controle podem ter sucesso, mas serão rapidamente contornadas. Isso vai dar à educação, em particular à universidade, um caráter de universalidade sem precedentes, que afetará profundamente o relacionamento aluno/escola e a participação do professor no processo. A universidade não será transformada por alguma mudança de legislação. Tentará resistir às mudanças e preservar seu estilo e seu lugar privilegiado na sociedade. Mas, aquelas que forem incapazes de entrar no futuro - que é, como todo futuro, desconhecido - serão colhidas pelo processo de exclusão. Ao mesmo tempo que as universidades vão encontrando dificuldades na sua operação cotidiana, vê-se um florescimento das chamadas universidades alternativas [20]. A própria universidade convencional deve buscar novos caminhos. A proposta de Michael S. Gazzaniga, do Center for Cognitive Neuroscience, do Dartmouth College, em New Hampshire é radical [21]. Abandonar a organização departamental e reestruturar a universidade de acordo com interesses dos seus pesquisadores, em torno de laboratórios e núcleos temáticos. Isso permitirá o surgimento de novas áreas interdisciplinares, um primeiro passo em direção à transdisciplinaridade. A reação à proposta de Gazzaniga foi imediata. Em uma carta aos editores, William E. Cooper, Reitor da Universidade de Richmond, Virginia, discorda das proposta de Gazzaniga, usando como principal argumento a expectativa dos estudantes no que se refere a graus acadêmicos, diplomas, certificação profissional [22]. Encarar a transformação da universidade sob esse ponto de vista é o maior impecilho para inovação. Conduz à mesmice, como bem observa Forrester, numa citação acima. Gradualmente, diplomas e certificações vão perdendo o sentido. Já no século passado o grande José Martí disse "Como se tira uma roupa e se coloca outra, é necessário colocar de lado a universidade antiga e adotar outra nova." Tive oportunidade de participar de alguns programas universitários na linha sugerida por Gazzaniga. Enquanto lecionava na State University of New York at Buffalo, associei-me a uma experiência muito interessante, quando em 1968 foram criados alguns "colleges" organizados em torno de temas. Também de 1975 a 1982 coordenei na UNICAMP o Programa de Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, mediante convênio entre a OEA e o MEC [23]. Esse programa adotou um esquema muito semelhante ao proposto por Gazzaniga. Em 1982 foram criados na UNICAMP os núcleos interdisciplinares. Essa também foi uma experiência notável que, a partir de uma organização pouco definida, foi se estruturando com um novo espírito acadêmico. É evidente que essas experiências ferem interesses estabelecidos. Na percepção de Gazzaniga, "seria possível administrar o problema de lidar com os prima donna [do mundo acadêmico] e defensores do status quo e compensaria o esforço". Seria importante destacar alguns pressupostos preliminares para repensar a universidade nessa linha de idéias: Ao ingressar na universidade o aluno deve ter oportunidade de conhecer todos os docentes e saber quais suas áreas de pesquisa. Ao fim de um ou dois semestres, dependendo do tamanho da universidade, ele deverá estar em condições de se agregar a um laboratório ou núcleo de pesquisa. Todo professor universitário deve ser um pesquisador, sempre professando pensamento novo. E, junto com seus alunos, ir construindo mais conhecimento. Sendo mais experiente, tendo mais conhecimento, o professor será o lider natural de novos projetos que respondem aos interesses dos docentes e dos alunos. Professor universitário que é mero transmissor de conhecimento congelado em livros, vídeos e discos é uma espécie em extinção. Esse professor será substituído, com vantagens, por tecnologia. Naturalmente, o número de aulas de conhecimento congelado deve ser reduzido drasticamente. A proposta é: Disciplinas muito gerais para todos: História das Idéias, Arte e Literatura, Ciências do Homem, Ciências Naturais e Ciências Sociais, Tecnologia. Uma leitura dos clássicos e de excelentes tratados modernos, além de vídeos e CD-Roms sobre esses temas seria a bibliografia recomendada. Poucas horas de aulas/conferências de síntese por semana, nas quais o docente orienta o aluno para leituras, vídeos e CD-Roms e sítios da Internet. A utilização de boas enciclopédias deve ser estimulada. Difícil pensar em alunos da universidade que não saibam ler, que não sejam capazes de acessar um vídeo ou não tenham acesso a um computador. A função do professor é, além dessa orientação, coordenar e estimular uma análise crítica do que foi lido, visto ou acessado. Muitas horas de permanência no laboratório ou grupo de estudos ao qual ele está associado. Essas propostas de renovação encontram resistência, como já exemplifiquei acima. Os argumentos sempre se baseiam no fato de a universidade dever oferecer aos jovens programas que oferecem diplomas para o exercício das profissões tradicionais. O fato é que, como já foi dito acima, essas profissões não tem mercado de trabalho e os diplomas estão se tornando pouco importantes. E os alunos estão se desinteressando dos cursos mais tradicionais das universidades. Não há dúvida que a expectativa de uma profissão está presente em todos os indivíduos que procuram uma escola. Num estudo preparado para um simpósio sobre "Educação para a Cidadania no século 21", um grupo de especialistas alerta para esse fato: "Os estudantes esperam que sua educação tenha alguma influência na sua habilidade de conseguir bons empregos bem como na satisfação de sua curiosidade intelectual. Porém, a força de trabalho no século 21 deverá ser preparada diferentemente da força de trabalho do século 20." [24] A situação se torna alarmante em alguns casos. Na Inglaterra há falta de professores de matemática e de ciências no ensino médio, apesar dos salários e acesso na carreira serem atrativos. Igualmente atrativas são as oportunidades para matemáticos nas indústrias. No entanto, em 1998, em todo o país apenas 700 estudantes optaram pelos cursos de matemática e 1.700 pelos cursos de ciências. Isso dá um déficit de cerca de 50% das necessidades do país nessas áreas. Por que essa situação? Lá como cá, os cursos são obsoletos, desinteressantes e até certo ponto inúteis. Os alunos não se sentem atraídos. Num futuro próximo, as oportunidades de emprego não dependerão de diplomas, embora mais e mais uma formação universitária será exigida. Aqueles diplomados que tiverem cursos amplos, com uma formação geral, terão melhores oportunidades profissionais que os portadores de diplomas das áreas de conhecimento tradicionais. Como aconteceu em outros tempos, a universidade é o espaço privilegiado para esse novo pensar. Ao mesmo tempo, paradoxalmente e como foi em outros tempos, a universidade tem sido o baluarte de resistência ao novo pensar. Mas se o novo pensar não encontrasse essa resistência, não seria mais que uma ilusão de ser novo. CONCLUSÃO Essas idéias surgiram como resultado da esperança que poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância, violência, indiferença e outras tantas mazelas deixem de ser na humanidade do futuro. Por que essa preocupação com a humanidade do futuro? Porque me sinto continuado no futuro. A comemoração do nascimento de filhos e netos é um ato de amor, e implica esperar que eles tenham filhos e netos, e que esses também tenham filhos e netos e assim, continuando a espécie estamos transcendendo nossa existência. Nessa comemoração está implícita a esperança que eles serão felizes [25]. De outra maneira, essas comemorações seriam um ato de falsidade e desamor [26]. Se eu comemoro o futuro, é porque acredito que há esperança e possibilidades de algo melhor no futuro. Ao ver um caminho para essas possibilidades, é autêntico que eu veja vantagens em percorrer esse caminho. Se meu amor vai além dos "meus", da minha tribo, da minha comunidade e atinge a humanidade como um todo, é coerente falar desse caminho e mostrá-lo a todos. Se eu propusesse, mesmo vendo desvantagens, minha autenticidade e minha coerência desmoronariam. Portanto, só vejo vantagens e nenhuma desvantagem em escolher esse caminho. Chegaremos lá? A resposta está no futuro. Mas que podemos saber do futuro? Numa obra de fundamental importância o Padre Antônio Vieira (1608-97) nos faz uma História do Futuro. Ele inicia o livro dizendo: "Nenhuma coisa se pode prometer à natureza humana mais conforme a seu maior apetite, nem mais superior a toda sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros. O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo tempo ou o seu saber ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada." [27] Ele teve seu livro proibido pelos tribunais da Inquisição, sob acusação de milenarismo. O milenarismo nos fala dos sinais de aproximação de uma era de felicidade, precedida de uma era catastrófica. Por razões óbvias, associou-se milenarismo com a passagem do milênio (1.000 anos). O pensamento milenarista é baseado nas tradições bíblicas e incorporado ao pensamento apocalíptico, e vê uma grande catástrofe como o catalisador da entrada numa era milenária (eterna) de ascenção e felicidade para os homens reconduzidos à sua condição angélica, perdida depois de Adão. O Abade Joaquim de Flora (século XII) propõe uma concepção trinitária da história: a era do Pai (Antigo Testamento), do Filho (Novo Testamento) e do Espírito Santo (espiritualidade). E após isso, no Fim dos Tempos, entra-se no Millenium. Os homens podem saber da aproximação do Millenium por meio de sinais, que alguns podem reconhecer. Alguns jesuítas, como o Padre Manuel da Nóbrega, o Padre José de Anchieta, e depois o Padre António Vieira, missionários no Brasil, viram os indígenas, em estado de pureza e não de selvajaria, preservados da corrupção da paixão política e da ambição do ouro, como os depositários de um projeto de realização do Millenium. O que podemos saber do futuro? Quais as nossas possibilidades de influenciar o futuro? Só poderemos falar em futuro se entrarmos no futuro hoje. A idéia de futuro se esvazia quando se espera o futuro para só então entrar no futuro. Desse modo estaríamos sempre vivendo no ontem. E o caminho que produziu as mazelas que hoje nos afligem, destacadas no início deste trabalho, com certeza não é o caminho que vai conduzir a um futuro onde não estejam presentes arrogância, inveja, prepotência e a destruição do nosso planeta. Qual é o novo caminho? "Caminante, no hay camino, se hace el camino al andar" Antonio Machado SUGESTÕES DE LEITURA Além das referências no texto, as obras relacionadas a seguir tem muita relação com a temática deste trabalho. David Adams (editor): The Seville Statement on Violence. Preparing the Ground for the Construction of Peace, UNESCO, Paris, 1991. Ubiratan DAmbrosio: Educação para uma Sociedade em Transição, Papirus Editora, Campinas, 1999. Ubiratan D'Ambrosio: Etnomatemática. Arte e técnica de conhecer e explicar. Editora Ática, São Paulo, 1990. Ubiratan D'Ambrosio: Globalização e Multiculturalismo, Coleção Fio do Mestrado n° 11, Editora da FURB, Blumenau, 1996. Ubiratan DAmbrosio: A Era da Consciência, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1997. Francisco di Biasi: O Homem Holístico, Editora Vozes, São Paulo, 1995. Marcelo Gleiser: A Dança do Universo. Dos Mitos de Criação ao Big-Bang, Companhia das Letras, São Paulo, 1997. Al Gore: Terra em Balanço, Editora Augustus, São Paulo, 1994. George G. Simpson: A Descronização de Sam Magruder, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1997. Pierre Weil, Ubiratan D'Ambrosio e Roberto Crema: Rumo a uma Nova Transdisciplinaridade. Sistemas Abertos de Conhecimento, Summus Editorial, São Paulo, 1993. Diversos números da revista THOT: Uma Publicação Transdisciplinar da Associação Palas Athena, São Paulo. Notas [1] O gorila mestre Ismael tem, na parede do seu escritório, um quadro com a pergunta "Com o fim da humanidade haverá esperança para o gorila?" e no reverso a pergunta "Com o fim do gorila haverá esperança para a humanidade?". Veja a bela fábula de Daniel Quinn: Ismael. Um Romance sobre a Condição Humana, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1998. [2] Thérese Dumesnil: Pierre Dansereau. Lécologiste aux pieds nus, Nouvelle Optique, Québec, 1981; p. 17. [3] Allain Bloom: The Closing of the American Mind, Simon and Schuster, New York, 1987; p. 167. [4] Para uma síntese ver o verbete Foundations of Mathematics no excelente Encyclopedic Dictionary of Mathematics, by the Mathematical Society of Japan, edited by Shôkichi Iyanaga and Yukiyosi Kawada, translation reviewed by Kenneth. O. May, The MIT Press, Cambridge, 1980; p. 549. [5] Para uma síntese ver o verbete quantum no Dictionary of the History of Science ed. W. F. Bynum, E. J., Roy Porter, Princeton University Press, Princeton, 1984. [6] op.cit. em nota 2, p. 550. [7] Ubiratan DAmbrosio; Transdisciplinaridade, Editora Palas Athena, São Paulo, 1997. [8] Ubiratan D'Ambrosio (organizador): Declarações dos Foruns de Ciência e Cultura da UNESCO (Veneza, Vancouver e Belém e a Carta da Transdisciplinaridade) , Textos Universitários, Editora da Universidade de Brasília, 1994. [9] Uma boa apresentação da história da espécie foi dada por Colin Tudge: The Time Before History. 5 Million Years of Human Impact, Simon & Schuster, New York, 1996. [10] Esse tema foi discutido nas conferência "La Transdisciplinaridad y los nuevos rumblos de la educación superior", disponível na internet: http://www.ldc.lu.se/uvla/uvla1.htm e "Universities and Transdisciplinarity", que pode ser encontrada na internet: http://perso.club-internet.fr/nicol/locarno/loca5c10.htm. [11] Vitruvius. The Ten Books on Architecture, transl. Morris Hicky Morgan (1914), Dover Publications Inc., New York, 1960; p. 38. [12] Junito Brandão: Dicionário Mítico-Etimológico, Editora Vozes, Petrópolis, 1991. [13] Ver A. C. Graham: Disputers of the Tao. Philosophical Argument in Ancient China, Open Court, La Salle, 1989. [14] O estudo das artes e técnicas (ticas) de explicar, de conhecer e de fazer (matema) em diferentes ambientes naturais e culturais (etnos) constitui a meta do programa etno-matema-tica. Ver Ubiratan DAmbrosio: Etnomatemática, Editora Ática, São Paulo, 1990. Como se dava a geração, organização e difusão desse conhecimento? [15] Anísio Teixeira: A Universidade de Ontem e de Hoje, org. e intr. Clarice Nunes, EdUERJ, Rio de Janeiro, 1998; p. 38-39. [16] Ver Ubiratan DAmbrosio: Specificity of the health sciences in the Iberian Peninsula at the time of the discoveries, Advances in Gynecology and Obstetrics, eds. P. Belfort, J. A. Pinotti and T. K. A. B. Eskes, Parthenon Pub. Co., London, 1988; pp. 29-32. [17] Uma universidade moderna necessitaria incluir reflexões sobre cenários do futuro. Uma disciplina ou seminário deveria ser focalizado em reflexões sobre o futuro, como aquelas, por exemplo, do livro de John Maddox: What Remains to Be Discovered. Mapping of the Secrets of the Universe, the Origins of Life, and the Future of the Human Race, Free Press, NY, 1998. [18] Archivo General de las Indias, Cuzco leg. 33, apud Alberto Flores Galindo, "Tupac Amaru y la sublevación de 1780", Tupac Amaru II 1780, ed. Alberto Flores Galindo, Retablo de Papel Ediciones, Lima, 1976; p. 307. [19] Uma excelente síntese foi feita por Constance Holden: No Last Word on Language Origins, Science, vol. 282, 20 November 1998; pp. 1455-1458. [20] É de grande importância no Brasil a Universidade Holística Internacional/UNIPAZ, iniciada em Brasília em 1987 e com campi por inúmeras regiões do país. Destacam-se também a Universidade da Paz, na Costa Rica, e a Universidade das Nações Unidas, com sede em Tokyo. Deve-se mencionar as universidades virtuais. Menciono em particular a UVLA:Universidade Virtual Latinamericana, que pode ser acessada em http://www.ldc.lu.se/latinam/uvla/uvla1.htm . [21] Ver o editorial provocativo de Michael S. Gazzaniga: How to Change the University, Science, vol. 282, 9 October 1998, p. 237. [22] Letters, Science, vol. 282, 6 November 1998, p. 1047. [23] Ensino de Ciências e Matemática na América Latina, org. Ubiratan DAmbrosio, Editora da UNICAMP/Editora Papirus, Campinas, 1988. [24] Science, Mathematics, Engineering, and Science Education for the 21st Century, Final Report (NSF 94-67 new), National Science Foundation, Washington,DC, July 1992; p. xiv. [25] Muitos dizem que a humanidade feliz, sem as mazelas apontadas, é utopia, Não acredito. Mas que seja utopia. É possível ser humano sem utopias? [26] Isso é bem ilustrado pela decisão de algumas tribos indígenas de não mais procriar, de praticar uma forma de suicídio da tribo. Esse é um ato de amor. Como foi ato de amor o evento de Masada, na Judéia, no século I. [27] Padre António Vieira, Obras Escolhidas, vol. VIII, História do Futuro (I), Prefácios e Notas de António Sérgio e Hernâni Trindade, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1953; p.1. |
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