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Etnomatemática

PRODUÇÃO DE 1999

Ubiratan D`Ambrosio

DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES

DA SALA DE AULA

O educador matemático Jerry P. Becker apresentou na Quarta Conferência Internacional sobre Educação Matemática da Universidade de Chicago, Agosto de 1998, um interessante diagnóstico sobre as condições a que estão sujeitos os professores da região sul do Estado de Illinois [2].

Os resultados são interessantes e mostram condições de ensino difíceis, ressaltando os principais problemas encontrados pelos professores daquele Estado.

Este trabalho é inteiramente baseado no de Becker. Não que a situação americana nos sugira análise ou ação na educação brasileira. Nem tampouco tenho uma preocupação com dados comparativos. Mas interessam as categorias de análise utilizadas por Becker e acho importante pensarmos em uma análise semelhante para as condições brasileiras. De fato, poder-se-ia propor um estudo nacional baseado nessas categorias de análise.

Neste trabalho vou propor categorias de análise semelhantes às de Becker, tecendo alguns comentários sobre o tema. Faz-se necessário uma pesquisa com os professores.

CARGA DIDÁTICA

Becker se refere à carga excessiva dos professores, que em casos extremos pode chegar a 7 horas diárias de aula.

Destaca ainda, como carga didática, a correção de trabalhos, responsabilidades extra-curriculares e administrativas, muitas delas representando um adicional no salário.

Destaca as freqüentes interrupções da aula para chamada, avisos, alunos que são chamados por alguma razão e outras interrupções. Claro, isso perturba o trabalho do professor.

O CONTEÚDO

É muito comum nos Estados Unidos professores que tem conhecimento inadequado de matemática, particularmente no que corresponde, na educação brasileira, às seis primeiras séries do 1° grau.

Aquilo que os professores acreditam que seja a natureza do conhecimento matemático é influenciado pelas experiências, em geral frustrantes, que os professores tiveram com matemática.

É muito comum os professores acreditarem que matemática é difícil e sentirem uma ansiedade com relação ao seu próprio desempenho. Tem medo de entrar na enfrentar a classe.

Esses professores no seu curso de formação tiveram de matemática somente disciplinas de conteúdo e um curso de metodologia [2].

Resumindo: os professores nunca tiveram oportunidade de fazer, de trabalhar efetivamente com matemática. Sua experiência se restringe a repetir conteúdos que lhes foram expostos.

TECNOLOGIA

CALCULADORAS E COMPUTADORAS

É muito comum que os professores tenham receio de utilizar computadores e mesmo calculadoras.

Outras vezes, mesmo estando dispostos a utilizá-los, as máquinas não estão disponíveis ou são de difícil acesso.

O mais comum é que os professores não receberam, na sua formação, qualquer preparação para utilizar tecnologia na sala de aula.

E não tem tempo de se preparar para isso, devido à carga didática excessiva.

PRESSÕES SOBRE O PROFESSOR

Os testes nacionais e locais (tipo "provões") mantém os professores sob permanente pressão. Os pais, as autoridades e a própria opinião pública tendem a atribuir aos professores a responsabilidade pelo baixo rendimento.

Os professores são pressionados pelas mudanças no sistema e nova legislação, tais como as mudanças dos sistemas de avaliação, sem receberam suficiente instruções sobre os novos sistemas e sem que tenham tempo de assimilá-las.

Também sofrem pressão da falta de orçamento para a compra de material.

Os professores gastam muito tempo, que deveria ser utilizado para ensinar, dando provas e testes e com serviços administrativos.

ESTUDANTES

Os estudantes levam para a sala de aula as angústias da sociedade moderna. Os professores tem que lidar com problemas externos à escola, tais como:

álcool, drogas, má alimentação (excesso de açúcar e "fast food"), dissolução de famílias, pais divorciados, a angústia de muitas possibilidades nas decisões, importância dada à aparência, popularidade, dinheiro, sexo, violência e falta de respeito, e falta de motivação.

PAIS

Os pais em geral não estão envolvidos com a educação dos filhos e não apoiam os professores quando as crianças se envolvem em comportamento agressivo, falta de respeito e outros comportamentos não aceitáveis na escola.

Não acompanham os filhos para desenvolver hábitos de estudo em casa.

A VIDA PROFISSIONAL

Os professores de matemática, por razões diversas, recebem tarefas que não correspondem a sua formação profissional, e assim perdem a sua identificação com a matemática. São solicitados pela administração das escolas a realizar tarefas de natureza burocráticae secretarial.

Devido às tarefas excessivas para casa (correção de provas, preparação de material e tarefas burocráticas), os professores se sentem isolados e tem poucas oportunidades de interação profissional entre eles.

Muitos professores dizem ter tido pouca ou nenhuma experiência em fazer planos de aula.

Muitos professores tem horror a dar aula em frente a seus colegas, embora acreditem que isso pode trazer benefícios para o aprimoramento de sua prática.

Cansaço é um fator dominante entre professores, assim como uma crescente descrença na sua missão. Os professores acreditam que o sistema escolar é resultado de uma conjugação de forças que eles não podem controlar Em conseqüência, a criatividade do professor é tolhida. Ele é um repetidor amedrontado.

Apesar disso, há professores ansiosos para se envolver nas reformas educacionais, como currículo, ensino e aprendizagem, e metodologia.

Deve-se mencionar que os professores, apesar de todos os obstáculos, são perseverantes e buscam inovações no currículo e no ensino.

Mas é importante deixar claro que:

  1. o trabalho de educadores matemáticos, mestres nos cursos de formação e proponentes de reformas, deve ter lugar na realidade dos professores e das suas escolas;

  2. a responsabilidade maior da melhoria do ensino é do professor que está dando aula.

Em última instância, as mudanças curriculares e pedagógicas dependem da transformação de professores em agentes, e não alvos, da reforma.

Constata-se que os professores enfrentam enorme desafio quando solicitados a mudanças no currículo e quando participam de cursos de aperfeiçoamento. Isso significa que muito mais recursos deveriam ser empregados para o desenvolvimento profissional do professor, além de recursos para melhorar os livros, aprimorar a avaliação e criar uma outra imagem da matemática perante o público.

Além disso, deve-se reconhecer que instituir um tempo do professor é um problema que deve ser solucionado se pretendemos ter alguma melhoria na educação matemática. Os professores simplesmente não tem tempo de preparar, interagir e cooperar um com outro, e muito menos de estudar as novas diretrizes curriculares e as mudanças no ensino.

NOTAS

[1] Becker, J.P. (1998) A Report on Inservice Work With U.S. Teachers of Mathematics. Talk given at the Fourth International Conference on Mathematics Education, University of Chicago, August 5-7, 1998.

[2] Deve-se mencionar que nos Estados Unidos os professores para esse nível de ensino não são necessariamente Licenciados em Matemática, mas tem uma formação geral. Algo semelhante ao nosso magistério, mas de nível universitário.


Etnopedagogia

1 Concepção 7 Célestin Freinet
2 Pensamento 8 Paulo Freire
3 Estruturação 9 Ubiratan D`Ambrosio ***
4 Paradigmas 10 Edgar Morin
5 Vivências 11 Pessoas&Livros
6 Processo 12 E-pombo@Correio

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